A citação do post anterior foi extraída do livro que estou lendo agora,
The Art of Travel, Alain de Botton. Páginas deliciosas que me deram aquela coceira para, depois de certo tempo, voltar a escrever com calma, com tesão, criatividade, curiosidade e estilo, sobre a nossa vida aqui em Brisbane.
Nos próximos dias, quero contar aqui, ao lado da Carol, sobre West End, o verdadeiro pico aqui de Brisbane (uma Lagoa da Conceição, uma Vila Madalena, uma Lapa queenslander), sobre arte, música, cervejas e cafés, sobre os perrengues e prazeres dessa vida de trabalhador estrangeiro, sobre amigos malucos e transitórios, etc, etc, etcetera.
Mas não hoje. Não agora. Agora espero Carol voltar do novo trabalho em um restaurante aqui do lado de casa, o mesmo onde trabalhei mês passado, e quero ficar com ela. Não nos vimos o dia inteiro, trabalhando em horários diferentes. Então, os presenteio com o verdadeiro "conto bizarro" que Carol testemunhou e me contou enquanto eu registrava a história no word, depois de vinhos e cervejas no The Shire, a melhor noite de segunda-feira que já vi na vida. Assunto para outro post, aquele sobre West End. Fiquem agora com:
Os corvos íntimos
Uma sacola de mercado em cada mão. Leite, ovos, ameixas secas, pão, broto de alfafa, morango, café com irish cream e gergelim. Resolvi, ao contrário do costume, entrar em casa pelos fundos. Passava pela lavanderia pra ver se a roupa que havia colocado na máquina estava pronta para estender no varal quando ouvi música vinda da janela do vizinho ex-punk atual consumidor de metadona subsidiada pelo governo australiano e jardineiro não-oficial do nosso condomínio, o amigável Terry.
Olhei para cima instintivamente, buscando aquele som, e aí passei a presenciar a maior bizarrice aviária da minha vida. A galera aqui não tem o costume de grampear a roupa no varal. Na verdade, normalmente esquecem ela ali, por uns dias, sob sol, lua e chuva. Aí caem cuecas, toalhas, etc na grama.
Pois foi quando dois malditos corvos – desculpe, Rudi, mas são os mais infernais pássaros “urbanos” que já tive o prazer de conviver, os malditos Australian Crows – desceram das cordas do varal para o chão, onde cataram, um uma meia preta, o outro uma calcinha cor-de-rosa, para saírem voando, levando ao bico aquelas peças íntimas de alguma australiana desleixada.
A pessoa provavelmente foi dormir delirando no porquê de alguém ter-lhe roubado uma meia (não o par) e uma calcinha. Será que é macumba? Será que foram aqueles vizinhos indianos? Ou o punk doidão? Ou Donald, o anão? Ah, meu Deus!
Bem, minha roupa eu grampeei com todo cuidado...